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Mitos midiáticos colocam em risco a saúde do brasileiro
Por Carolina Chagas*

O momento atual pede alerta e urgência. Cada brasileiro, em 2014, consumiu 7,3 litros de agrotóxicos, presentes em dois terços dos alimentos consumidos rotineiramente nas nossas mesas, como: abobrinha, pimentão, maçã, cenoura, arroz e outros alimentos. Esses dados foram anunciados pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, em seu quarto ano de existência, contando com o apoio de 117 entidades em defesa da causa. Não é para menos que o nosso país se configura mundialmente como recordista no consumo desses venenos. Nosso mercado interno, tal como aponta o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), não apresenta restrições quanto ao uso de produtos banidos ou com produção suspensa em países mais ricos, devido aos agravos à saúde e ao meio ambiente.
A janela inicial desse processo, como registrado pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca), foi a liberação do uso de sementes transgênicas. Isso mesmo! Estavam enganados aqueles que pensavam que as sementes geneticamente modificadas exigiriam menos venenos, pois ao contrário disto elas demandam quantidades exorbitantes de agrotóxicos. Além disso, essas sementes causam mais dependência econômica, interferência cultural, insegurança alimentar do ponto de vista qualitativo e poluição genética. Essa combinação letal - transgênicos e agrotóxicos - está sendo ignorada pela Câmara dos Deputados, que decidiu recentemente facilitar as coisas para o agronegócio, eliminando a obrigação da rotulagem das sementes modificadas. Os defensores de ambos argumentam que não há com o que se preocupar e destacam não haver pesquisas claras sobre o tema.
Não é bem assim. Nas discussões ideológicas fica claro que o lucro é colocado à frente da saúde e do meio ambiente.
As consequências imediatas apresentadas pelo uso/consumo dos agrotóxicos são expressas pelos alarmantes casos de intoxicação humana notificados pelo SUS, com mais de 34 mil indivíduos entre trabalhadores, moradores dos arredores de fábricas e fazendas e os consumidores, que ingerem alimentos contaminados. Mais chocante ainda é saber que até o leite materno pode estar contaminado, já que os agrotóxicos são cumulativos e ainda têm a capacidade de se dispersar no ambiente. Estudo realizado pela UFMT demonstrou que 100% das amostras de leite materno de 62 nutrizes apresentaram contaminação com pelo menos um tipo de agrotóxico analisado.
Impactos biológicos, sociais e ambientais foram apresentados no Dossiê ABRASCO: Um Alerta Sobre os Impactos dos Agrotóxicos na Saúde, nova edição publicada no último dia 28 de abril. A publicação reforça uma verdade cientificamente comprovada - Os agrotóxicos fazem mal à saúde das pessoas e ao meio ambiente – e se posiciona contrária aos mitos midiáticos que reforçam que o agronegócio sustenta a economia nacional e que é peça fundamental para acabar com a fome.
Em 2008, 14 ingredientes ativos de agrotóxicos usados no Brasil, muitos proibidos em outros países, foram selecionados para reavaliação por parte da Anvisa, agência reguladora da matéria. Mas, até agora, apenas quatro foram banidos e, mesmo assim, com tempo de carência para que seus estoques fossem vendidos.
Frente à demora na conclusão dos pedidos de reavaliação, o Ministério Público Federal (MPF) fez uma interpelação à Anvisa e recomendou a conclusão da reavaliação toxicológica do glifosato, justificando a adoção do princípio da precaução, já que estudos desenvolvidos pela International Agency for Research on Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial de Saúde (OMS), indicam que o ingrediente pode ser cancerígeno. O MPF também apresentou petição à Justiça Federal solicitando liminar para proibir a concessão de novos registros de agrotóxicos que contenham oito ingredientes ativos, entre eles o glifosato, em razão de suas potenciais características carcinogênicas, mutagênicas, teratogênica e/ou disrupturas endócrinas. Outra providência adotada foi à instauração de um novo inquérito civil para verificar se há necessidade de cancelamento de liberações para venda de sementes transgênicas, já que parte delas é tolerante ao herbicida glifosato.
Indiferente a esta situação, a indústria de produção dos venenos continua finalizando o balanço financeiro com valores incalculáveis – mais de R$ 36 bilhões – destinados àqueles que só enriquecem com este tipo de negócio. Em 2005, Eduardo Garcia já nos provocava quando afirmava em seu estudo sobre a legislação do registro de agrotóxicos: “É interessante observar que a aplicação de agrotóxicos é, provavelmente, a única atividade em que a contaminação do ambiente de produção e trabalho é intencional. Normalmente, as contaminações dos ambientes de trabalho são indesejáveis e devem ser controladas, mas como proceder quando a contaminação é a finalidade da atividade?”. Parece piada, mas certamente é ironia.
Benefício para quem? Boaventura, sem melindres, indica a direção “o agronegócio tem força política – basta ver a Bancada Ruralista – que se repercute em força econômica, de que são exemplos os generosos financiamentos que recebem”. Sem dúvida, é urgente a adoção de uma nova postura para realinhar rumos para a sociedade e para os setores públicos e privados.
É sob esse prisma que precisamos fazer ecoar em todo o país um grito de Basta! Não queremos mais o glifosato, 2,4-D, atrazina, acefato, diurom, carbendazim, mancozebe, metomil e clorpirifós, nenhum desses mortíferos em nossa mesa. A sociedade brasileira exige seus direitos sociais à informação, saúde, alimentação e bem-estar e, ainda, a implantação imediata de iniciativas de regulação e controle dos agrotóxicos, como o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (PRONARA) e o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo), pela redefinição de um sistema de produção alimentar sustentável e pela garantia de territórios livres de agrotóxicos e transgênicos.

Carolina Chagas é nutricionista, Especialista em Educação em Saúde, Mestre em Ciências da Saúde pela Unifesp e Doutoranda no Programa de Nutrição Humana da Universidade de Brasília. É consultora da Unesco e diretora da Associação Brasileira de Nutrição.
       
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